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EIS QUE O “MILAGRE ECONÓMICO” CAI POR TERRA


Artigo de Opinião de José Ricardo Lopes

A crise económica pós-Covid-19 é um fenómeno impossível de prever em tempo útil, afetando tudo e todos, indivíduos, empresas, organizações e estados. Não nos restará, enquanto país, grande alternativa senão “apanhar os cacos do chão”.

O Governo abriu a porta a linhas de crédito e moratórias, consciente de que pouco mais poderá fazer, em contraste com Governos de países vizinhos que, com outra capacidade de resposta, consequente de economias mais robustas, promoveram a injeção de liquidez na economia.

Virou-se então para a União Europeia, e no conselho europeu em conjunto com outros estados membros, pediu a emissão de dívida em forma de eurobonds, instrumento que pela via de endividamento, permitiria aumentar significativamente o orçamento de cada estado membro para fazer face ao problema. A opção foi vetada por alguns estados membros, como a Alemanha, que seguem uma política económica mais conservadora, e menos exposta ao endividamento.

Nas palavras dos responsáveis pelo banco central alemão, “não se confia o cartão de crédito a terceiros sem nenhum tipo de restrições ou controlo de gastos”, defendendo a posição de que cada estado deverá utilizar os recursos de que dispõe e que a U.E disponibilizará mecanismos de auxílio, nunca um cheque em branco.

Ora Portugal, não sendo propriamente um exemplo de governação/gestão económica nos últimos anos (décadas?), dispõe de poucos recursos, o que no final do dia, significa menor capacidade do governo em produzir políticas para salvar a economia e, consequentemente, maior exposição a prejuízos financeiros para famílias e empresas.

António Costa, visivelmente frustrado, repreendeu os líderes dos estados que vetaram tal opção de endividamento, afirmando que são posições “repugnantes”.

Concordo em parte com António Costa, pois a União Europeia assenta em diversos pilares, sendo a solidariedade entre estados um deles. Ao mesmo tempo, não posso deixar de lembrar que a união se faz de esforços, e que para que o grupo seja forte e robusto, necessita que as suas partes “puxem todas para o mesmo lado”, sejam exigentes e prossigam políticas sustentáveis a longo prazo. Não é de todo o caso de Portugal.

O Governo continua a apostar tudo no presente e a prometer milagres futuros, continua a apostar tudo no poder de consumo das famílias como um meio e não como um fim, continua a secar as empresas com absurdas cargas fiscais e ainda assim pede que suportem as perdas e não façam despedimentos.

Continua a viver dos lucros do turismo e exportação e não aposta em sectores estratégicos como o mar, agricultura ou indústria.

Continua a permitir que o país navegue à vista e não define objetivos estratégicos a longo prazo, bem como se mostra inerte a realizar reformas necessárias como na área da justiça ou a implementar políticas públicas sérias relativamente à natalidade. Enfim, já sabem o resto.

Não tenho dúvidas que Portugal sairá afetado desta crise, e não será por culpa alheia, não será por falta de alcance de solidariedade europeia nem por culpa de um qualquer governo anterior. Será sim por culpa própria e por inoperância e incompetência do atual Governo.

Como país, enquanto não soubermos tomar conta de nós próprios e nos emanciparmos desta “adolescência”, iremos estar sempre na dependência e vontade de terceiros, que em tempos difíceis, como estes demonstram, cada um depende de si. Como estado membro da União Europeia, deveremos tornar-nos parte da solução e não repetidamente parte do problema.

Afinal, o projeto europeu dificilmente continuará, enquanto uns eternamente suportarem o peso da má governação de outros.

P.S: Não há milagres económicos e a reação de António Costa não passa de teatro para consumo interno.

José Ricardo Lopes

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